sábado

Só mais um pouquinho

Devo conseguir começar o saite dentro de algum tempinho.
O que está aí embaixo é provisório...
E tem o endereço da Armênia, que também não está pronto.

segunda-feira

Impressões: Moscou

Comprei uma camiseta que diz
Я люблю москву.

"Ya lyoublyoú Moskvú", eu amo Moscou,
turista e jornalista,
realista ou sonhadora,
talvez
eu ainda aprenda a falar russo e ainda volte para ver o frio de dezembro e ainda conheça — de verdade — um moscovita.

Fotografei dez vezes o Kremlin,
que vejo da minha janela
no hotel Rússia.

E fotografei a Praça Vermelha,
Красная Площад — puta nome bonito,
lindo, como diz o nome.

E fotografei também as cúpulas coloridas de tantas igrejas, conventos, mosteiros, catedrais
(porque na Rússia toda igreja é catedral)
e a melancolia de outono das ruas de Moscou,
a mesma melancolia dos campos da Rússia — só que cosmopolita.

Россия, na verdade, é que é o nome do hotel.

Talvez eu ainda more em Moskvá.
Talvez ainda volte no verão,
e talvez um dia eu domine as declinações do russo e saiba escrever Moskvá com a desinência certa em cada uma destas frases.

Я люблю москву,
mas talvez esqueça em breve esta cidade,
ou talvez eu a transforme em suvenir:
uma camiseta de turista e uma matrioshka no quarto.
(Mas sempre sobrará a lembrança da melancolia boa.)

Queria mesmo era acordar amanhã
e ver o céu enfim todo azul sobre as cúpulas coloridas de São Basílio;
ver de novo "1 oC" no painel da temperatura
e saber que estou sozinha em Moscou,
que estudo em Moscou,
que tomo o metrô em Moscou,
que me comunico bem em Moscou,
que em Moscou tenho um endereço e bastante roupas de frio,
e que amanhã à noite vou ao Bolshoi, ver finalmente um balé.

Queria era poder dizer até logo:
"Da svidania, Moskvá!"
(no vocativo?)
e voltar em alguns meses,
por tempo indeterminado:
até cansar de amar Moscou.

sexta-feira

Impressões: São Petersburgo

Chove na cidade. São mais ou menos 13h, o grupo já saiu em excursão a uma tal de Petrodvorets, cidade que é a "Versalhes russa" e onde deve haver um palácio, jardins bonitos e fontes grandiosas jorrando água sob um céu nublado e os pingos da chuva. Hoje, estamos cansados. Andamos muito durante dois dias, sem os turistas que nos acompanham, e livres também de Irina, a guia stalinista que os acompanha, a eles — coitados. Enquanto Irina metralha os nomes e as datas do caminho a Petrodvorets, nós esperamos sentados no hotel até a chuva parar de cair.

"Setembro e outubro são os piores meses do ano na Rússia, principalmente em Petrogrado", avisou John Reed, já em 1919, quando escreveu 10 Dias que Abalaram o Mundo. A informacao meteorológica no primeiro capítulo do livro ajuda a compor a ambientação da cidade que foi palco das maiores movimentações preparatórias da Revolução Russa de 1918. Sao Petersburgo, санкт-петербург, feita para ser a capital imperial desde sua fundação em 1703, era então chamada Petrogrado. A mudança de nome, segundo nos contou Irina, havia sido feita em 1914, com o objetivo de trocar o sufixo alemão "burg" pelo russo "grado", que também significa "cidade". O "São" tambem caiu. Irina tira uma conclusão impecável: "Quando se tirou o prefixo do santo, houve uma revolução". Bela dedução. Foi uma piada, certo? Impossível descobrir a partir da entonação de seu português enrolado, de sotaque de Portugal, e de sua expressão de professora brava.

Deduzo eu que Irina, na verdade, nao é stalinista. Por diversas vezes ela fala do comunismo com desconfiança; mas lamenta o massacre dos Romanov e se refere aos antigos imperadores com a sutil e respeitosa intimidade de uma súdita. A guia é autoritária, sim, mas czarista: nasceu sob Stalin, com saudade de Nicolau II.

Esta cidade tambem já foi Leningrado, após a morte do líder revolucionário, e logo depois da abertura de Gorbatchev adotou novamente seu nome original. "São Petersburgo" foi fundada pelo czar Pedro I. A homenagem ao apostolo era uma forma disfarçada de dar o próprio nome à nova cidade que o imperador mandou construir.

Tantos nomes e datas vêm, quase todos, das informações de Irina. Czares, ditadores comunistas e agora o presidente Vladimir Putin tecem a história de autoritarismo deste país. Enquanto o ocidente lamenta essa tradição politica e teme pelas novas medidas de Putin para concentrar poder em suas mãos, aqui são vendidas agendas com a foto do presidente na capa, ao lado da bandeira russa e de outros símbolos nacionais, em pose entre herói e galã.

Gustavo Leal, brasileiro dono da agência de viagens Tchayka, e que parece conhecer a Rússia profundamente, aponta que Putin foi eleito duas vezes no primeiro turno, sem falar em nenhum momento sobre democracia ou liberdade. Mais surpreendente para nós: uma pesquisa recente, segundo ele, revelou que 70% ou 75% dos russos gostariam de ver novamente a censura sobre os meios de comunicação: eles estão cansados de besteiras e violência na televisâo e nos jornais. Gustavo alfineta: "O curioso é que a gente fala de democracia, que é a vontade da maioria do povo; e a gente não pensa que o que a maioria do povo quer, aqui, é um governo autoritário."

Eu vejo essa vontade de uma mão forte, por exemplo, quando Irina se embravece tentando reter a atenção de seus turistas indisciplinados. Como deve estar fazendo agora, nos jardins de Petrodvorets, sob uma chuvinha fina nada convidativa.

John Reed continua a descrição do outono na cidade. "Sob um ceu cinzento e nublado, nos dias mais curtos, a chuva cai incessante, ensopando tudo." Incessante? Não pode ser: preciso sair, hoje é nosso último dia em Sao Petersburgo. Parece que o sol saiu lá fora. Vou ver se dá, pelo menos, para tirar uma foto do mar Báltico.